Vertumno e Pomona

Vertumno (Vertuno) e Pomona

Pomona era uma das ninfas que habitavam a floresta, só que possuía uma ligação mais forte com os jardins e o cultivo de frutas – adorava como ninguém os campos cultivados! Era plena felicidade para Pomona ver as árvores carregadas dos mais doces frutos.

Ao invés de armas em suas mãos, levava facão de podas. Por vezes, com esse mesmo objeto cortante impedia o crescimento desmedido de alguma planta, ou com ele partia um galho para produzir um novo enxerto. E aguardava que o tempo trouxesse uma nova espécie.

Ela também se preocupava, que os seus protegidos cultivos não sofressem com a seca, e produzia correntes de água para eles, para que as raízes sedentas tivessem água para beber. Esse era o seu principal objetivo, e sua paixão; e estava livre dos sentimentos que eram inspirados por Vênus.

Não se deixava intimidar pelos camponeses, e mantinha o seu pomar fechado, não permitindo que nenhum humano entrasse. Recusava e impedia a aproximação afetiva ou qualquer cortejo amoroso.

Os Faunos e os Sátiros teriam dado tudo o que possuíam para conquistá-la, e também o velho Silvano, com sua aparência jovem através dos anos, e , que usava uma guirlanda com folhas de pinho na cabeça.

Mas Vertumno, a amava mais que todos; embora não fosse tão bem sucedido como os outros.

Oh quantas vezes, disfarçado de colheitador, ele levava trigo para ela num cesto, e ele se disfarçava igualzinho a um colheitador! Com uma faixa de feno presa em torno do seu corpo, alguém poderia pensar que ele acabara de chegar da sua labuta diária de ceifar o campo. Em outros momentos ele trazia na mão um aguilhão, e você certamente teria dito que ele havia acabado de desatrelar os bois cansados, quem poderia dizer que era puro disfarce? Agora ele levava consigo uma foice, e gostava de fazer o papel de vinhateiro; e depois, com uma escada nos ombros, parecia que ia colher as mais saborosas frutas. Em outros episódios Vertuno costumava marchar como um soldado já afastado dos campos de batalha, e outras vezes ele levava uma vara de pescar, como se estivesse indo a uma pescaria!

Desse jeito ele ganhava cada vez mais a simpatia dela, alimentando a sua paixão apenas com a visão dela. Eram maneiras de estar mais próximo do seu grande amor.

Porém, um dia ele apareceu disfarçado de velhinha, apresentava cabelos grisalhos cobertos por uma touca, com um cajado na mão. A “velhinha” entrou no jardim e ficou admirando as frutas. “São os teus méritos, minha querida,” disse ela, beijando-a, não exatamente como beija uma velhinha e em seguida sentou-se num banco, e ficou olhando os galhos carregados de frutas penduradas em cima dela.

Diante dela estava um olmo entrelaçado com uma videira carregada com uvas graúdas. Ela elogiou a árvore bem como a videira abraçada à árvore. Viu como igualmente, olmo e videira se cooperavam e se uniam em fortalecimento um ao outro. Poderia ser isso algo de afeto?

— Mas, — disse a “velhinha” — se o Olmo, mesmo forte e viril, estivesse sozinho, e não tivesse um pé de uva agarrado a ela, a árvore em si não seria nenhum atrativo e poderia nos oferecer algo apenas que suas folhas sem muita utilidade. Igualmente a Videira, se não estivesse entrelaçada ao Olmo, ela ficaria prostrada no chão. Por que você não aprende a lição do elmo e da videira, e concorda em se unir a alguém?

Gostaria que você fizesse isso. A própria Helena, não tinha tantos pretendentes, nem Penélope a esposa do astuto Ulisses. 

Em seguida a “velhinha” continuou:

— Apesar de desprezá-los, eles te fazem a corte, divindades rurais e outros de diversas naturezas que andam por estas montanhas. Mas, se você for prudente, e deseja fazer uma boa aliança, e permitir que lhe aconselhe esta velha que te ama mais do que você imagina, deixe de lado todos sim, no entanto aceite o amor de Vertuno. E o meu conselho. Conheço-o tão bem quanto ele se conhece. Não é uma divindade errante, mas pertence a estas montanhas. Nem se assemelha a muitos dos amantes de hoje em dia, que ficam por aqui e alí e não amam profundamente e de verdade, a ninguém. Ele ama você e a ninguém mais. E adicione a isso que ele é jovem e belo e tem a arte de assumir qualquer aspecto que deseje, e pode transformar-se exatamente naquilo que você mais quiser. Além do mais, ele aprecia e ama as mesmas coisas que você ama, Veturno deleita-se com a jardinagem e admira os seus frutos.

Despois de uma pequena pausa seguiu:

— Porém, neste momento ele não se interessa nem por frutas e flores, nem outra coisa qualquer, a não ser por você. Tem piedade dele e imagina-o falando agora através da minha boca. Lembre-se Pomona de que os deuses castigam a crueldade e que Vênus detesta os corações duros. Cedo ou tarde a Deusa do Amor irá vingar-se da sua incessante repúdia ao amor. Para provar isto, deixe que eu lhe conte uma história que é bem conhecido que em Chipre é verdadeira. E espero que depois de lhe contar, o resultado é que você se torne mais benevolente.

— Ífis era um jovem de origem humilde, que se apaixonou por Anaxárete, nobre dama de uma antiga família de Têucria. Contudo, Ífis lutou muito para esconder e até mesmo esquecer seus sentimentos, mas não conseguia. Inúmeras vezes tentou se aproximar da família de sua amada e da sua própria amada, no entanto tudo em vão. Um dia, depois de tanto desprezo decidiu matar-se bem à frente do mesmo local que ele antes lhe oferecia flores. Seu corpo inerte foi levado a sua viúva mãe que lamentou tudo o que uma mãe pode lamentar diante da perda de um filho. Horas depois, rumo a pira o cortejo fúnebre passou bem em frente da opulenta moradia da família de Anaxárete e ela por impiedosa curiosidade decidiu sair à torre para apreciar o funeral. Tão logo os seus olhos que observavam o rito fúnebre se tornaram pedra, seu corpo começou a se tornar imóvel, e em seguida todo seu corpo já não tinha mais nada de vida, era apenas pedra, assim como seu coração. Vênus jamais a perdoaria, jamais. E não há como duvidar do fato, tendo em conta que a própria estátua hoje se encontra no templo de Vênus de Salamina. Portanto, pense bem minha querida, pense…

Depois do relato, Vertumno se desfez do disfarce de velhinha e mostrou-se tal como era. Pomona teve a impressão de ver o sol irrompendo através de uma nuvem. Ele ia renovar seus apelos, mas não houve necessidade; seus argumentos e seu próprio aspecto triunfaram e a ninfa já não mais resistiu, correspondendo-lhe com o mesmo ardor.

Fontes:

https://pt.wikisource.org/wiki

O livro de ouro da mitologia – história de deuses e heróis – por Thomas Bulfinch (Ediouro)

As 100 melhores histórias da mitologia, por A. S. Franchini / Carmen Seganfredo, Editora Newtec.

Notas: Vertumno – etimologicamente pode ser traduzido como “voltar, virar, mudar, transformar-se”, parece ser de origem etrusca, seria o principal deus da Etrúria. Personifica a ideia da transformação, sendo por isso mesmo, em princípio, a divindade que preside as mudanças operadas na natureza com a sucessão das estações; protetor das árvores frutíferas, da vegetação e das colheitas.

Existem vários traços na composição da figura de Vertumno – divindade de metamorfosear-se em ceifeiro, soldado, pescador, comerciante, pastor…

Em Roma, o deus do metamorfismo possuía uma estátua no Vicus Tuscus, no bairro etrusco, numa quadra de comerciantes e é onde lhe faziam oferendas no dia 13 de agosto.

Pomona: derivado do feminino pomus, árvore frutífera; ninfa? divindade? muito bela que possuía o bosque sagrado denominado Pomonal.

Fonte: Dicionário Mítico-Etimológico da Mitologia e da Religião Romana, por Junito de Souza Brandão, Editora Vozes.

Vertuno e Pomona ilustração de Francesco Melzi (1491-1570)

2 comentários em “Vertumno e Pomona

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: