IMEDIATISMO

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay 

Diariamente, sim diariamente – e praticamente de 9 horas por dia, segundo a matéria publicada em maio de 2020 no site terra.com.br (link abaixo) –  as pessoas se encontram conectadas à internet. Eu conheço pessoas que ficam conectadas de 12 a 14 horas por dia! Isso não é nem bom, nem ruim é algo para refletir. Também há que agradecer.  Sou muito grata à internet e as redes sociais. Sem elas você não estaria aqui e eu nem teria tido a oportunidade de publicar este texto. Bem, e comecei o texto justamente com uma citação de uma matéria na internet, para me autocutucar (mesmo)!

Em tempo, antes de prosseguirmos… Claro, há o grande problema da pandemia e tudo ficou mais dilatado, mais preocupante… o isolamento social, a incerteza, o desemprego, entre tantos outros, desencadeou o aumento do consumo da internet e o acesso às redes sociais.

Bem, estamos conectados à internet por aproximadamente 9 horas e… capturados – ou sequestrados – pelo outro ângulo do tema: o imediatismo. O novo termo cultura do imediatismo circula por toda internet: tudo ao mesmo tempo e agora.

E numa conversa sobre esse tema do imediatismo ramificamos o assunto e criei brincando o termo “instantisismo” alguns dias atrás enquanto trocava ideias com o jornalista, editor, roteirista e tradutor Júlio de Andrade Filho. Conversávamos sobre o “novo, atual, moderno, aqui e agora” versus “velho, antigo, arcaico, passado” e concluímos que chegou assim chegando com força, marcando presença: a polarização, como resultado do “instantisismo”(rsrsrs).  Brincadeiras à parte, num universo sutil e até mesmo infantil, estamos desqualificando tanto o antigo como o novo. E impulsivamente, quase todos nós valorizamos de olhos semicerrados a “última notícia”.

Foto por Pixabay em Pexels.com

E o que chama atenção é que cultura tem sua origem em “cultivar”. Tudo o que tem a ver com cultura é preciso paciência, dedicação e tempo, não há cultivo instantâneo, logo o termo se contradiz.  Ora se cultura é o que vamos adquirindo a longo prazo e que permanece através do tempo a fim de dar testemunho ao que rodeia, e a cultura é também o desenvolvimento do conhecimento, como pode “cultura do imediatismo”? Contraditório demais, não!?! A vertigem do aqui e agora, do rápido, do instantâneo não sobra ar para respirar e nem pensamento profundo para pensar. Entra a taquicardia “mas e se eu perder muito tempo averiguando?”

Controverso, contraditório, antagônico ou não, estamos sendo levados ao imediatismo e respondemos a ele.

E o que será o agora senão um fragmento do passado e do futuro? É um jogo e estamos apostando às cegas que o agora tem que ser satisfeito e preenchido a qualquer custo. O imediatismo tem um preço e posso lhe garantir que no futuro a longo prazo vai custar caro.

O imediatismo estimula a impaciência, isso não cabe dúvida. Contudo, a falta de paciência leva com certeza ao déficit de atenção e a diminuição da concentração que automaticamente reduz a capacidade de absorção de dados, informações e conhecimento. Não é preciso pensar, porque a internet pensa por nós?!?

Foto por Sharad Kachhi em Pexels.com

Estamos entupidos de informação, no entanto são informações em alguns instantes são legais e importantes, outras apenas divertidas, tantas outras muito falsas. E por que isso aumenta? De onde vem este resultado? Imediatismo. A receita de uma nova combinação para uma salada é bacana, mas a intoxicação por algum alimento ali agregado na salada não é nada bacana não… é chato, viu? A dica de um chá milagroso que cura tudo pode ser genial, mas investigar se algum dos componentes tem efeitos colaterais é de suma importância. Um desses chás cura-tudo levou um conhecido ao hospital com uma tremenda crise de pressão arterial porque a receita levava uma grande quantidade de gengibre, que é contraindicado a hipertensos.

O que constatamos acima de tudo é a ansiedade, a precipitação, medo e angústia se ficarmos para trás ou que nossos desejos não sejam atendidos. Vem um fantasma da vergonha de que não tenhamos recebido curtidas ou respostas dos posts que publicamos. É o terror ao vazio. Medo de cair no nada. O círculo vicioso: adquirir informações ou bens para preencher uma falta. Adquirimos. Em seguida vem de novo o vazio interior. E conforme as horas e os dias vão passando, estes índices de vazio e esgotamento do nada dobram. Se minha essência possui valores bem identificados, firmes e conscientes, se me permito refletir, minhas conclusões e direcionamento estarão mais fortes. Eu não sei do que o nada é composto, mas eu sei que antes de cair no nada tem a pessoa, tem você que está lendo, que tem muito mais valores a serem explorados do que imagina. Você tem a você mesmo! E isso é um luxo! É uma vitória!

E o outro aspecto deste caleidoscópio do imediatismo: é facinho, facinho sermos manipulados… A informação sem filtro e rápida adicionado ao desejo de ser aplaudido (likes) pode lhe levar a acreditar em coisas sem nenhum cabimento lógico. 

Foto por cottonbro em Pexels.com

Alguns profissionais dizem que isso não é um problema psicológico, outros afirmam que sim. Uns médicos dizem que é neurológico e hormonal, outros não. Alguns cientistas dizem que sim outros afirmam que não. E uma das coisas que o imediatismo é mestre: a polarização. Constatamos dia após dia o extremismo e a polarização como recurso tanto para chamar a atenção, como para embrutecer nosso pensamento, tanto como para facilitar a vida do MKT e da publicidade. Afinal de contas, se tudo está polarizado, basta fazer uma campanha para o público X e outra para o Y e está resolvido, sem grandes dilemas.

Fui agraciada por conhecer um médico aqui no Peru, Dr. Carlos Vasquez, médico endocrinologista e cirurgião, que me deu algumas explicações bem pontuais: “não é possível localizar exatamente quando começou, mas a ansiedade, depressão, angústia, pânico vem aumentando continuadamente nos últimos anos. Vemos que nos exames laboratoriais os níveis de cortisol (hormônio do stress) cada vez mais alterados; constatamos que o ritmo circadiano que regula os ciclos biológicos, a temperatura corporal e o sono, está cada vez mais fora do seu funcionamento natural”.  Dr. Vasquez não possui uma visão polarizada e acredita que inúmeros fatores interferem na nossa saúde. E se nossa saúde está alterada também em função ao meio ambiente, logo por que não a tecnologia, usada de maneira desmedida e compulsiva, também não a alteraria? Ele me explicou que nosso corpo diante da ansiedade, ativa algo em nós muito primitivo – tipo nossos ancestrais que tinham que sair correndo e fugir por causa de um grande perigo – que altera de uma forma muito intensa nossos hormônios, a estabilidade do funcionamento dos órgãos e sistema nervoso central. A cada novo instrumento, a cada nova ferramenta, a cada nova tecnologia, nosso sistema nervoso central capta a informação e se amolda para a adequação, mas de uma forma ou de outra algo foi alterado.

Numa conversa por telefone celular, com minha tão querida amiga Jasna Lancho, que é jornalista e corretora de estilo, nós dialogamos sobre o tema e ela lembra que o imediatismo, não tem local específico é geral, é global. Ela não nega o stress e a ansiedade gerados pelo imediatismo, mas vê que se usarmos as tecnologias com moderação, nós podemos acessar conteúdos geniais. Srta. Lancho diz, “por um lado podemos virtualmente conhecer museus – alguns deles que nem imaginávamos um dia poder visitar – e em outros continentes; podemos nos comunicar livremente com pessoas em outros países; felizmente temos acessos a conteúdos acadêmicos em alguns sites; quem tem paciência e bom senso, se decide pesquisar, encontrará informações muito interessantes, preciosas! A vida se tornou menos dura nessa pandemia graças a internet. E mais: está anunciado para o futuro bem próximo o fim da telefonia fixa e quem sabe, um pouco mais adiante num futuro não muito distante, até mesmo a telefonia celular”.

E um pensamento leva a outro…

Em meio a tudo isso, eu me lembrei de livros que li sobre arqueologia e visitas a sítios arqueológicos onde, em um deles eu vi plasmado na Huaca del Sol y de la Luna em Trujillo, La Libertad, Peru a manifestação artística da Rebelião dos Artefatos. Na imagem abaixo, podemos apreciar que os objetos se “rebelaram” contra os humanos na cultura Moche, aproximadamente no século VII da nossa era.

Esta imagem, desde que eu a vi pela primeira vez há 10 anos, ficou impregnada na mente. Aparentemente se pode observar que o ser humano, e que não é de agora,  vem sempre de uma maneira ou outra, criando objetos, instrumentos, artefatos e tecnologias que com o passar de algum tempo, estes mesmos se rebelam, ganham vida e atuam em nós e por nós, e por vezes contra nós. A arte aqui mostra os artefatos usados em batalhas onde ganharam vida e decidem lutar corpo a corpo contra os guerreiros. Essa imagem faz meu pensamento divagar e até arrisco a considerar que desde o primeiro instrumento criado, uma ponta de lança, lá no período pré-histórico, o ser humano deve ter tido ali, seu primeiro stress psicológico… Afinal de contas, qualquer artefato criado por nós, nos desvia a atenção do que antes costumávamos nos concentrar.

Reviro os olhos, torço a boca, aperto a mandíbula, cruzo e descruzo as pernas com a inquietude, sinto os dedos das mãos e dos pés se contraindo e os ombros tensos: o que fazer em relação ao aspecto debilitante (sim é certo, o imediatismo nos deixa exaustos e sem energia) do imediatismo?

Creio que podemos saudavelmente nos auto comprometer com pequenas mudanças de hábitos, estabelecer limites e com resiliência lidarmos com o nosso agora com mais serenidade. Ainda somos livres para fazer as coisas com amor, boa vontade… e com calma.

Créditos e fontes:

Texto: Clene Salles

@clenesalles @mitosesimbolos

Crédito da ilustração: imagem encontrada no livro Huaca de La Luna – Templos y Dioses Moches – Castillo, Santiago Uceda; Gamarra, Ricardo Morales, págs. 198-199.  

https://www.terra.com.br/noticias/tecnologia/seguranca-digital/os-brasileiros-estao-cada-vez-mais-conectados-a-internet,e6901880be9ea5939ec86d9ad59c2e8737neon3b.html

http://www.nicholascarr.com/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: